O que terá na superfície de um corpo feito de silêncio?

 


Se, nas camadas mais profundas, escutamos apenas o silêncio, o que chega à superfície? O que oferecemos aos famintos pelo consumo, aos olhares atentos que aguardam qualquer novidade para se lançar sobre ela? O silêncio, o vento frio e a ausência de luz não preenchem prateleiras, não impulsionam vendas, não sustentam o crescimento de recursos, nem financeiros, nem emocionais. Nesse cenário, o afastamento e a exclusão parecem inevitáveis. Afinal, quem se interessaria por algo que soa vazio, visualmente pouco atrativo e nada prático, quando tudo ao redor exige movimento, produção e expansão?

E, de repente, você se vê fora da linha de produção. Desempregada, dependente, cercada por remédios, perdida em pensamentos que não ajudam a encontrar o caminho de volta. As emoções se tornam confusas, distorcidas, e o espírito parece vagar sem direção. Você busca respostas em todos os lugares possíveis, na igreja, no centro espírita, no terreiro, mas ainda assim sente que algo continua faltando.

No meio disso tudo, surge a busca por um culpado e, no fundo, ele quase sempre aponta para você mesma. Sem perdão, sem forças, sem esperança, vem a sensação de desistência. A ideia de que não dá mais para voltar, de que sozinha não é possível, de que é preciso ajuda. Os dias começam a pesar. Você acorda se sentindo um pouco pior, mas diz para quem pergunta que está melhor, que hoje foi diferente.

Então você fecha os olhos e dorme, não como um descanso merecido, mas como uma forma de pausar o tempo, de fugir do peso das máscaras que precisa sustentar quando está acordada.

A reflexão de hoje é simples, mas desconfortável: quando não conseguimos escolher, o universo faz a escolha por você. E, mais uma vez, surge a sensação de estar sendo conduzida, controlada.

Mas e se fosse possível retomar esse controle, ainda que aos poucos? Não como quem voa livremente como um pássaro ou mergulha profundo como uma baleia, mas como alguém que, mesmo dentro de uma floresta complexa, aprende a reconhecer seus próprios caminhos.

Talvez o maior desafio não seja vencer o vazio, mas não se perder completamente dentro dele.

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